TRANSLATE

Busque arquivos antigos

15 de junho de 2010

O professor de Grego



O PROFESSOR DE GREGO
Manuel Bandeira


Ciro contou-me:
─ Quando X assumiu o governo do Estado, tratou logo tratou logo de colocar seus amigos, que eram numerosos e andavam bem esfomeados. A mudança de política permitiu demitir muita gente, que foi substituída pela gente do novo governador. Eis, que, quando já não sobrava lugarão de encher o olho e o bolso, chegou do interior do Estado mais um amigo do governador, amigo de infância a quem era impossível deixar de atender.
─ Mas também você se meteu naqueles cafundós, nunca mais deu notícia de si, ponderou o governador. Agora os melhores lugares já estão preenchidos. Em todo o caso, vou pensar no caso. Dê-me uns dias e apareça.
Três dias depois, o amigo voltou ao Palácio. Foi recebido com efusão.
─ Arranjei uma coisa ótima para você, disse o governador. Uma Sinecura! Você vai ser professor de grego no Ginásio do Estado.
─ Mas eu não sei nada de grego, nem quero saber!
─ Nem precisa saber. Pela última reforma de ensino, o grego é matéria facultativa, e há dois anos não aparece ninguém para estudar grego. Portanto, tudo que você tem a fazer é comparecer no princípio do mês para receber seus vencimentos.
O amigo achou ótimo e foi nomeado. Era aí por junho; até o fim do ano não houve nuvem na sua felicidade de comensal à mesa do orçamento do Estado. Mas no começo do ano seguinte principiou ele a temer que se apresentasse no ginásio algum rapazola extravagante com vontade de aprender grego. O professor ia à secretaria do Ginásio e indagava do secretário se entre os matriculados havia algum inscrito para a cadeira. O secretário, muito amável, respondia que não, mas que aqueles rapazes deixavam tudo para a última hora e era bem possível que o professor tivesse a satisfação de conseguir um aluno. Não sabia o secretário era justamente o que o professor não queria!
Afinal, na véspera de se encerrarem as matrículas, surgiu um desalmado que desejava aprender grego para ler Homero(*) no original. O professor ficou aterrado e correu para o Governador. Queria a demissão imediatamente, para não ficar desmoralizado.
─ Arranje-me outra coisa, pediu aflito o amigo.
─ Calma, homem. Não vá ao Ginásio na primeira semana. Raro é o professor que vai. Até lá é possível que o matriculado desista do grego. Passe por aqui dentro de uma semana. Verei o que se pode fazer.
Não foi preciso outro lugar para o amigo do Governador. Ele continuou como professor de grego. O aluno é que desistiu. Isto é, não desistiu, mas foi preso e expulso do Estado como comunista. A notícia se espalhou e nunca mais apareceu ninguém no Ginásio com veleidades de aprender grego.



Leia sobre Homero no Portal São Francisco

8 comentários:

  1. Bela mudança!
    O post muito apropriado. Sabes que o meu marido também ensinaria Grego...se tivesse alunos! desde 1980 que não temos alunos.
    Tudo dito sobre o ensino actual.
    Beijo

    ResponderExcluir
  2. Terezinha,

    Adorei. Não conhecia esse texto de Manuel. Fantástico. Procurava uma imagem de Homero e cai aqui...adorei.

    Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Adorei! Que retrato fiel de muitos governadores do meu país e tantos outros políticos. Isa

      Excluir
  3. Que bacana esta narrativa. Eu li na antiga sétima série do Ginásio antigo...boa recordação eu tive agora ao relê-la.

    ResponderExcluir
  4. Amei. Li esta narrativa quando cursava a sétima serie do Antigo Ginásio.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Usava esses tipos de textos com meus alunos, para gostarem de leitura e desenvolverem novos horizontes.

      Excluir
    2. Estas narrativas são muito ricas e leva os alunos desenvolverem a auto critica.

      Excluir

A humanidade é um oceano. Se algumas gotas estão sujas, isso não significa que ele todo ficará sujo. (Mahatma Gandhi)