TRANSLATE

Busque arquivos antigos

16 de janeiro de 2015

Semana Pedagógica



DIFICIL DE ENSINAR
Justamente por dizer respeito à convivência, falar de ética é tarefa difícil para o professor. Sempre se suspeitará de não haver nada de muito novo a ensinar. Ou a aprender. Afinal, todo mundo entende um pouco disso. Ou, pelo menos, deveria entender. É o que se espera. Não é muito comum, nem recomendável, admitir total ignorância no assunto. Imaginem a má impressão que causaria a seguinte advertência: sou médico e de ética não entendo nada. Ou ainda: sou político e ética não é meu forte.
            E com você não é diferente. Desde os parágrafos iniciais deste primeiro capítulo, o seu repertório sobre ética nunca é virgem. Já conta com referências, crenças mais ou menos compartilhadas, certezas consolidadas. Há muito tempo talvez. Tudo isso aprendido no ritmo da vida, na contingência dos encontros com o mundo e na complexidade das relações com outras pessoas, ao longo de uma ininterrupta consolidação moral. Por essas e outras razões, às vezes parece mais fácil ensinar o que são ligações peptídicas, medir áreas geométricas ou ainda calcular as energias potencial e cinética de uma que se desloca lá.




           DIFÍCIL DE APRENDER
Ética tem a ver com convivência. Eis o seu objeto. Isso já sabemos. Mas implica também esforço intelectual. É pensamento, sobre a vida. Vivida em meio aos demais. Em relação. E vida regida pelo pensamento. Por isso, todo esse pensamento acaba organizado em saberes. Conhecimento acumulado ao longo da história, fruto de uma dedicação coletiva, estimulada por uma preocupação que nos acompanha desde sempre: a identificação da melhor maneira de viver e conviver. Saberes que não nascemos sabendo. Que precisamos aprender com os outros. E que curiosamente estão ausentes em nossa educação formal. Com efeito. Na escola, a reflexão sobre a convivência mais adequada ocupa posição marginal ou nula.
É um paradoxo. Em meio a um cipoal de discursos pedagógicos que preconizam a emancipação, ainda hoje não escolhemos muito das coisas que aprendemos. Quase tudo é obrigatório. As eventuais disciplinas optativas são tardias. Os currículos se impõem sem clemência: aparecem no caminho dos estudantes como acidentes geográficos no percurso do aventureiro. Enfrentamento compulsório.
Assim, docentes e discentes já sabem que é em tal série que se estuda logaritmo. E só na série seguinte, matrizes. Obviamente. Como também é obvio que História Geral  são as da Europa e Estados Unidos. Mais recentemente, um pouco de América Latina Mas nunca do a do Zaire. Os livros de referência e as apostilas enquadram o conhecimento propondo sequencias de conteúdo cada vez mais indiscutíveis, adestrando o aluno para performances convincentes em face das instâncias oficiais de legitimação. Como os exames de toda ordem.
Obviedades de conteúdo raramente chamam a atenção. Naturalizam-se. Nada mais conveniente para os que decidem. Para os detentores do poder curricular. Definidores do que é indiscutivelmente importante. Que esqueçamos deles. Que não denunciemos o viés arbitrário e interessado de suas decisões. Que nunca percebamos que tudo na educação poderia ser muito diferente do que é. Que não atinemos nunca para sua índole ideológica. Porque toda dominação só é de fato eficaz quando desobriga o dominante a dar explicações a respeito de suas decisões. Quando estas são tomadas como obvias. Ter de argumentar é indicativo de fraqueza.


Do livro; "A FILOSOFIA EXPLICA GRANDES QUESTÕES DA HUMANIDADE" de Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu, Casa do Saber

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A humanidade é um oceano. Se algumas gotas estão sujas, isso não significa que ele todo ficará sujo. (Mahatma Gandhi)