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6 de outubro de 2006

Sete Quedas

ADEUS SETE QUEDAS

Carlos Drumond de Andrade

Sete Quedas por mim passaram
e todas sete se esvaíram.
Cessa o estrondo das cachoeiras,
e com ele
a memória dos índios, pulverizada,
já não desperta arrepio.
Aos mortos espanhóis, aos
mortos bandeirantes,
aos apagados fogos
de Ciudade Real de Guairá vão juntar-se
os sete fantasmas das águas assassinadas
por mão do homem, dono do Planeta.
Aqui outrora retumbaram vozes
da natureza imaginosa, fértil
em teatrais encenações de sonhos
aos homens ofertados sem contrato.
Uma beleza-em-si , fantástico desenho
corporizado em cachões e bulcões de
aéreo contorno
mostrava-se, despia-se, doava-se
em livre culto à humana vista extasiada.
Toda a arquitetura, toda a engenharia
de remotos egípcios e assírios
em vão ousaria criar tal monumento
e desfaz-se
por ingrata intervenção de tecnocratas.
Aqui sete visões, sete esculturas
de líquido perfil
dissolvem-se entre cálculos
computadorizados
de um país que vai deixando de ser humano
para tornar-se empresa gélida, mais nada.
Faz-se do movimento uma represa;
da agitação faz-se um silêncio empresarial,
de hidrelétrico projeto.
Vamos oferecer todo o conforto
que luz e força tarifadas geram
à custa de outro bem
que não tem preço nem resgate,
empobrecendo a vida
na feroz ilusão de enriquece-la.
Sete boiadas de água, sete touros brancos
de bilhões de touros brancos integrados
afundam-se em lagoa, e no vazio
que forma alguma ocupará.
Que resta senão da natureza a dor sem gesto,
a calada censura
e a maldição que o tempo irá trazendo?
Vinde povos estranhos, vinde irmãos
brasileiros de todos os semblantes,
vinde ver e guardar
não mais a obra de arte natural.
hoje cartão postal a cores, melancólico.
Mas seu espectro ainda rorejante
de irisadas pérolas de espuma e raiva,
passando, circunvoando,
entre pontes pênseis destruídas
e o inútil pranto das coisas,
sem acordar nenhum remorso,
nenhuma culpa ardente e confessada.
(“Assumimos a responsabilidade!
Estamos construindo o Brasil grande!”)
E patati patati patatá...
Sete Quedas por nós passaram
e não soubemos, ah, não soubemos amá-las.
E todas sete foram mortas
e todas sete somem no ar,
sete fantasmas, sete crimes
dos vivos golpeando s vida
que nunca mais renascerá,


ELEGIA PARA AS SETE QUEDAS
Roza de Oliveira

As comportas se fecharam
para a água represar.
O imenso lago será
maior que os olhos de Deus
que começou a chorar?

As águas cobrem os campos
cobrem árvores copadas;
cobrem plantinhas e flores
que não foram resgatadas
pela espécie que as condena
a viverem viverem liquefeitas
sem ninhos e sem perfumes,
sem ar, sem sol, sem estrelas,
sem pássaros, sem borboletas.

As comportas se fecharam.
As águas estão aumentando.
Água na terra e no céu,
porque Deus está chorando!

O animal fugitivo
chora o seu canto perdido;
o homem chora o seu berço
no qual havia nascido,
onde vivia a sonhar.
Tanto ninho destruído!
A quem pertence o direito
de tais destinos mudar?

As comportas se fecharam
para o Quadro sepultar
do nosso divino Artista
Sua obra singular!
De luto Ele está vestido,
muito triste, arrependido
do poder ao homem dar.
Sete Quedas expirando...
Sete Quedas se acabando...
Deus e o homens chorando...


Sete Quedas
(Roza de Oliveira)
No aluvião das palavras
que desabam sem parar
das cascatas dos lamentos
por Sete Quedas findar
ouve-se uma profecia
de que o gigantesco lago
só cem anos vai durar!

E, se ao Ser Supremo cabe
tudo um dia resgatar,
no mito do eterno retorno
desde já vou me integrar,
para ver as Sete Quedas
um dia ressuscitar!



(As Sete Quedas desapareceram com a represagem das águas do Lago da Usina Hidrelétrica de Itaipu para que o Rio Paraná se tornasse um rio navegável. Que pena que os interesses comerciais foram mais importantes que essa obra tão bela esculpida pela natureza! )


Leia mais em http://sopabrasiguaia.blogspot.com

SUGESTÕES:
- Leitura
- Estudo do vocabulário (sinônimos)
- Produção de texto teatral sobre o final das Sete-Quedas
- Entrevista com pessoas que viram as Sete-Quedas
- Pesquisa e exposição de fotos e reportagens sobre as Sete Quedas.
- Cartazes com desenhos sobre o poema “Elegia às Sete Quedas”.
- Debate: prós e contra o fim de alguma queda d’água ou outra beleza natural do município ou de um município próximo.

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A humanidade é um oceano. Se algumas gotas estão sujas, isso não significa que ele todo ficará sujo. (Mahatma Gandhi)