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1 de janeiro de 2007

Os milhanos e os pombos


La Fontaine

Uma guerra atroz deflagrou-se nos ares entre a raça dos abutres, por causa de um cão morto que despertara a avidez de todos. Choveu sangue em quantidade; juro que não estou exagerando. Se quisesse descrever a luta de começo ao fim, em todos os seus detalhes, chegaria a perder o fôlego. Afirmo, contudo, que muitos chefes e muitos heróis perderam a vida. Era uma coisa admirável ver seus esforços, mas era uma pena vê-los tombar mortos. Empregaram com igual destreza valor e coragem, astúcia e arrojo; os dois magotes, dominados por igual furor, não pouparam nenhum meio para povoar a região dos mortos.

Esse furor homicida, essa chacina infame, despertou compaixão na alma de outra nação, cujo coração sensível e cuja fidelidade são notórios, a qual se prontificou a intervir, como mediadora, a fim de pacificar os contendores. Escolheram-se embaixadores experimentados dentre os melhores pombos; e estes souberam parlamentar com tanta diplomacia, que induziram os abutres a terminar a luta insana; depois de uma trégua para as negociações, estipularam acordo e assinaram a paz.

Desgraçadamente, porém, a paz foi feita às expensas da raça a quem eles deviam gratidão; a maldita espécie, sem o menor respeito às regras da humanidade, atirou-se sobre os pombos fazendo uma terrível carnificina e em poucos instantes, despovoaram inteiras cidades e campos.

O ingênuos pombos revelaram falta de prudência querendo apaziguar um povo tão selvagem, não há dúvida, mas fizeram-no confiados na lealdade. Por isso convém guardar a lição.

Conservai sempre apartados e desunidos os maus; pois disso depende a segurança dos demais povos. Semeai sempre a guerra entre eles próprios, do contrário nos vos deixarão em paz.

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A humanidade é um oceano. Se algumas gotas estão sujas, isso não significa que ele todo ficará sujo. (Mahatma Gandhi)